Efectivamente, Mário e Toku (pai e filho) se fizeram ao mar naquela fatídica segunda-feira do dia 04 de Dezembro de 2017 e não regressaram.
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Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva |
Depois de praticamente três meses sobre a tragédia do mar com os dois pescadores citados, este acontecimento ainda se encontra envolto num mistério.
Efectivamente, Mário e Toku (pai e filho) se fizeram ao mar naquela fatídica segunda-feira do dia 04 de Dezembro de 2017 e não regressaram. Apesar de incessante buscas por pessoas experientes na lide do mar não foram localizados.
Realmente se em Cabo Verde é complicado na terra encontrar um desaparecido, no mar a sua complexidade é ainda maior exigindo meios, perícia, tenacidade, paciência, persistência e audácia particularmente quando o mar se encontra em condições em que se encontrava na altura.
Perante este drama aflora-nos à ideia duas hipóteses: a primeira a mais animada mesmo que seja ela muito remota: terão estes pescadores sobrevivido às fúrias do mar?
A segunda hipótese: a mais constrangedora obviamente e a mais plausível naturalmente: não terão estes dois homens perecidos no momento logo confrontados com as ondas gigantescas que inesperadamente se levantaram? Com base na opinião de pescadores experimentados conhecedores do local lamentavelmente é pouco provável que estes dois homens tenham sobrevivido.
Bem, como se costuma dizer a esperança é a última a morrer. A ver vamos.
Feitas estas considerações vamos conhecer um pouco sobre a trajectória da vida de Mário e Toku e, claro está: um pouco dos seus percursos na vida do mar.
Começamos pelo primeiro: Mário Correia Semedo nasceu em Colhe Bicho arrabaldes da cidade do Tarrafal no seio de uma família de humilde condição social: Virgínia Correia Semedo (Nha Tuxa). Hoje falecida. Entre os 10 filhos de NhaTuxa é o 2º na lista de 9 irmãs (único rapaz a cuidar das 9 raparigas). Entretanto, Mário passou os primeiros 7 anos de vida em Chão Bom aos cuidados de uma senhora amiga da mãe.
Aos 22 anos de idade se casou com Maria Manuela Gomes Queijas. Esta na casa dos 20 recorda que o enlace aconteceu na Igreja Paroquial de Santo Amaro Abade em 23 de Junho de 1979. Dessa união resultara 5 filhos: 2 rapazes e 3 raparigas. A última filha hoje com 24 anos de idade sofre infelizmente de doença mental desde criança na sequência de uma meningite.
Vida de mar de Mário
Mário Correia Semedo começou bem cedo às lides do mar. Conta a esposa que Mário aos 11 anos de idade já se aventurava às pescas. Que em casa preparava-se para a escola mas o destino afinal era o mar. Que só mais tarde a mãe viria descobrir que o Mário não ia à escola mas sim à pesca em companhia de pescadores antigos habituados nessa lide. Adianta a esposa que desde que se juntou ao Mário por casamento em 1979 ao longo da sua vida o sustento da família foi sempre dependente do mar graças ao sacrifício do marido nessas difíceis aventuras. Que em casa Mário era uma pessoa muito divertida e dava-se com toda a gente, por isso deixou muitos amigos.
Mário enfrenta a primeira tragédia no mar
Coincidência ou não, Mário saiu à pesca na ilha do Sal onde se encontrava acompanhado de um outro colega, no dia 04 de Novembro de 1999 e foram levados pela corrente e aí estiveram à deriva cerca de 5 dias desaparecidos sem água e sem comida. Por forças misteriosas foram aparecer na pequena baía de um lugar do Concelho do Tarrafal denominado “Porto Formoso”. Conduzidos à casa foram recebidos como “heróis ” pela família e população e a festa foi grande como se pode imaginar. Por insistência da mulher e de alguns amigos, Mário deixou a vida de mar por algum tempo encontrando na terra um outro meio de ganha-pão. Mas, como é natural, todo o ser humano trás na alma aquela legitima aspiração de viver da sua própria profissão. Assim, o Mário não se resignou com a vida na terra e se lançou de novo às azáfamas do mar consciente dos seus riscos e o sustento da família em casa nunca faltara.
Assim, com este último acontecimento do dia 04.12.17 acabou lamentavelmente a vida de mar de Mário de forma trágica levando consigo o filho no mesmo destino. Convém salientar que os dois eram o principal amparo da casa. A mulher, já com uma certa idade e em estado permanente de choque sendo hoje uma pessoa que necessita na verdade de todos não só do apoio material mas também do apoio moral ou espiritual se assim preferir particularmente do Município do Tarrafal onde está inserido.
Laurentino Gomes Semedo (Toku)
Quanto ao Laurentino (Toku), a sua história das azáfamas do mar não abunda tanto uma vez que só a partir de Setembro do ano transacto se lançou nessas aventuras fazendo companhia ao pai. Nascido a 29 de Março de 1983 em Colhe Bicho. Exercia antes da tragédia profissão de pedreiro como seu ganha-pão.
De temperamento calmo segundo conta a mãe divertia-se como qualquer jovem da sua idade, tinha também os seus projectos como qualquer um. Deixou uma filha na casa dos seus dois anos encontrando-se em cuidado da mãe.
Um abraço a todos.
Tarrafal, aos 03 de Março de 2018. f:asemana
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